Enxaqueca: conheça quais os tipos, gatilhos e quando procurar o neurologista
A enxaqueca costuma aparecer nos momentos menos convenientes: no meio de uma reunião importante, na véspera de uma viagem ou naquele fim de semana planejado há meses.
Primeiro vem um cansaço diferente, depois a luz do ambiente começa a incomodar e, em pouco tempo, uma dor latejante toma conta de um lado da cabeça. O que resta é cancelar compromissos, fechar as cortinas e esperar a crise passar, muitas vezes ouvindo de alguém que "é só uma dor de cabeça".
Porém, para quem convive com crises frequentes sabe que não é bem assim. Além da dor, existe a preocupação com a próxima crise, a dificuldade de explicar no trabalho por que precisou sair mais cedo e a sensação de que a rotina passa a ser organizada em torno do problema. E essa realidade é mais comum do que parece: um estudo publicado na revista Cephalalgia estimou que 15,2% dos adultos brasileiros tiveram enxaqueca ao longo de um ano, com frequência 2,2 vezes maior entre as mulheres.
Neste artigo, você vai entender a diferença entre enxaqueca e dor de cabeça comum, conhecer os sintomas e os tipos da doença, identificar os gatilhos mais frequentes e saber como aliviar e prevenir as crises. Também vai ver quais sinais indicam a hora de procurar o neurologista.
Siga a leitura e, se as crises já fazem parte da sua rotina, saiba que não é preciso conviver com elas sem acompanhamento médico.
O que é enxaqueca e qual a diferença para a dor de cabeça comum
Também chamada de migrânea, a enxaqueca uma doença neurológica conhecida, com diagnóstico e tratamento. Porém, nem toda dor de cabeça é enxaqueca.
Na medicina, qualquer dor de cabeça é chamada de cefaleia, e os quadros são divididos em dois grandes grupos: as cefaleias secundárias e primárias.
As cefaleias secundárias são consequência de outro problema, como uma sinusite, uma febre ou uma ressaca. Já nas cefaleias primárias, a dor é a própria doença.
As duas cefaleias primárias mais comuns são a enxaqueca e a cefaleia tensional, aquela dor em aperto que muita gente sente depois de um dia estressante. As duas são doenças por si só, mas se manifestam de formas bem diferentes, conforme evidencia a tabela abaixo:
| Característica | Enxaqueca | Cefaleia tensional |
| Tipo de dor | Latejante, pulsátil | Em pressão ou aperto, como uma faixa ao redor da cabeça |
| Localização | Geralmente de um lado, podendo alternar ou atingir os dois | Dos dois lados, na testa, nas têmporas ou na nuca |
| Intensidade | Moderada a forte | Leve a moderada |
| Duração | De 4 a 72 horas, quando não tratada | De 30 minutos a alguns dias |
| Esforço físico | Piora com atividades simples, como subir escadas | Não costuma piorar |
| Sintomas associados | Enjoo, vômitos e incômodo com luz, sons e cheiros | Em geral, ausentes |
| Sinais de aviso | Pode ter pródromo e aura antes da dor | Não costuma ter |
| Impacto na rotina | Frequentemente obriga a interromper as atividades | Costuma permitir seguir o dia |
Sintomas de enxaqueca e as fases da crise
Os sintomas de enxaqueca vão além da dor. Uma crise pode passar por até quatro fases, mas nem todas as pessoas vivem todas elas, e uma mesma pessoa pode ter crises diferentes ao longo da vida.
Pródromo: os sinais de aviso
Horas ou até um ou dois dias antes da dor, o corpo pode dar pistas e reconhecer o pródromo é útil porque permite agir mais cedo. Entre os sinais mais relatados estão bocejos frequentes, irritabilidade, cansaço, dificuldade de concentração, rigidez no pescoço e vontade de comer doces.
Esse desejo, aliás, faz com que o chocolate seja muitas vezes apontado como culpado, quando pode ser apenas um sinal de que a crise já começou.
Aura
A aura é um conjunto de sintomas neurológicos temporários, na maioria das vezes visuais, que pode surgir antes ou durante a dor de cabeça. É a presença ou a ausência dela que diferencia os dois principais tipos da doença.
Enxaqueca sem aura é a forma mais comum. A crise começa diretamente com a dor, às vezes precedida pelos sinais do pródromo, sem alterações neurológicas antes.
Na enxaqueca com aura, a crise é precedida ou acompanhada por sintomas neurológicos reversíveis, que surgem aos poucos e costumam durar de 5 a 60 minutos. Segundo a American Migraine Foundation, até um terço das pessoas com enxaqueca apresenta aura, e ela não precisa acontecer em todas as crises.
A aura visual é a mais frequente: pontos brilhantes, luzes piscando, linhas em zigue-zague ou áreas de visão borrada que se expandem aos poucos. Também pode haver aura sensitiva, com formigamento que começa na mão e sobe pelo braço ou atinge um lado do rosto, e, com menos frequência, dificuldade para encontrar palavras ou falar.

Por mais assustadora que seja, a aura típica desaparece por completo. Ainda assim, a primeira aura da vida, aquela que dura mais de uma hora ou que vem com fraqueza em um lado do corpo, deve ser avaliada pelo médico, porque esses sinais também podem aparecer em outras condições, como o AVC.
Fase de dor
A dor costuma ser latejante, de intensidade moderada a forte, e dura de 4 a 72 horas quando não tratada. Durante a crise, é comum sentir náuseas ou vômitos, fotofobia (incômodo com a luz), fonofobia (incômodo com sons) e sensibilidade a cheiros.
A dor também pode piorar com movimentos simples, como caminhar ou abaixar, o que leva muitas pessoas a buscar um lugar escuro e silencioso para deitar.
Pósdromo: a fase de recuperação
Depois que a dor passa, pode ficar uma sensação de esgotamento, com cansaço, dificuldade de concentração e sensibilidade no couro cabeludo, por até um ou dois dias. Muitas pessoas descrevem essa fase como uma espécie de ressaca.
Enxaqueca episódica e crônica: como diferenciar?
Outra forma de classificar a doença considera a frequência das crises. Na enxaqueca episódica, a pessoa tem dor de cabeça em menos de 15 dias por mês.
Quando a dor aparece por mais de três meses, com características de enxaqueca em pelo menos oito desses dias, fala-se em enxaqueca crônica.
Essa evolução costuma estar ligada a crises mal controladas e ao uso frequente de analgésicos, o que reforça a importância do acompanhamento.
O que causa enxaqueca e quais são os gatilhos mais comuns
A enxaqueca tem forte componente genético: ela acomete pessoas geneticamente predispostas, e é comum que outros familiares também tenham crises. Nessas pessoas, o cérebro é mais sensível a mudanças internas e do ambiente, e determinados estímulos podem ativar os mecanismos que levam à dor.
Esses estímulos são os chamados gatilhos. Eles variam muito de pessoa para pessoa e nem sempre provocam uma crise sozinhos. Muitas vezes, é a soma de fatores, como uma semana estressante, noites mal dormidas e refeições puladas, que abre caminho para a dor.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cefaleia, estão entre os principais desencadeantes:
• sono irregular, seja dormir pouco, dormir demais ou mudar muito os horários;
• jejum prolongado ou refeições puladas;
• estresse e preocupações excessivas, incluindo irritação e alterações de humor;
• alterações hormonais, especialmente no período menstrual;
• bebidas alcoólicas;
• cafeína em excesso ou a interrupção brusca do consumo habitual;
• alguns alimentos, como os gordurosos, condimentados ou muito gelados, com grande variação entre as pessoas;
• estímulos sensoriais, como luzes fortes ou piscantes, muito tempo diante de telas, barulho e cheiros intensos;
• falta de atividade física;
• uso excessivo de analgésicos.
Uma estratégia simples ajuda a reconhecer os próprios gatilhos de enxaqueca: o diário de crises. Anotar a data, o horário, a duração e a intensidade da dor, além do que comeu, como dormiu, em que fase do ciclo menstrual estava e qual remédio usou, revela padrões que passam despercebidos no dia a dia.
O registro pode ser feito em um caderno ou no celular e é muito útil na consulta médica.
Como é feito o diagnóstico da enxaqueca
O diagnóstico da enxaqueca é clínico, ou seja, baseado na conversa com o médico e no exame físico e neurológico. Não existe um exame de sangue ou de imagem capaz de confirmar a doença.
Na consulta, o médico investiga quando as dores começaram, como são, quanto tempo duram, quais sintomas as acompanham, o que costuma desencadeá-las, como é a resposta aos remédios e se há casos na família. Nesse momento, o diário de crises faz toda a diferença.
Exames como tomografia ou ressonância magnética do crânio não são necessários para a maioria das pessoas. Eles são indicados quando há sinais de alerta, como mudança no padrão da dor ou alterações no exame neurológico, para descartar outras causas de dor de cabeça.
Como aliviar a crise de enxaqueca
Durante a crise, o cérebro fica mais sensível à luz e ao barulho, e reduzir os estímulos costuma trazer alívio. "É por isso que muitas pessoas, quando estão em meio à crise de enxaqueca, procuram se isolar num quarto escuro e silencioso", comenta o dr. Eduardo Mutarelli, neurologista do Hospital Sírio-Libanês.
Por isso, algumas medidas ajudam a atravessar a crise com mais conforto: deitar em um ambiente escuro, silencioso e arejado, aplicar compressas frias na testa ou na nuca, manter a hidratação e, se possível, dormir. Técnicas de respiração e relaxamento também podem reduzir o desconforto.

Quanto aos remédios, o mais importante é seguir o plano definido com o médico. Existem diferentes opções para a crise, desde analgésicos e anti-inflamatórios até medicamentos desenvolvidos especificamente para a enxaqueca, e a escolha depende da intensidade da dor, dos sintomas associados e do histórico de saúde de cada pessoa.
Saber como aliviar a enxaqueca, porém, não significa se automedicar. O uso frequente de analgésicos por conta própria pode levar à cefaleia por uso excessivo de medicamentos, um quadro em que o próprio remédio passa a manter a dor e as crises se tornam quase diárias.
Tratamento preventivo da enxaqueca
Quando as crises são frequentes, duram muito, respondem mal aos remédios ou atrapalham trabalho, estudos e convivência, o neurologista pode indicar o tratamento preventivo. O objetivo é reduzir a frequência, a intensidade e a duração das crises, devolvendo previsibilidade à rotina.
O tratamento é sempre individualizado. Pode incluir medicamentos de uso contínuo, procedimentos realizados em consultório e ainda terapias mais recentes, desenvolvidas especificamente para a prevenção da enxaqueca.
A escolha leva em conta o tipo de enxaqueca, a frequência das crises, outras doenças e planos pessoais, como uma gravidez.
Os resultados do tratamento da enxaqueca costumam aparecer de forma gradual, ao longo de semanas, por isso ele não deve ser interrompido sem orientação.
Os hábitos do dia a dia também são parte essencial da prevenção:
• horários regulares para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana;
• refeições em intervalos regulares, sem longos períodos de jejum;
• hidratação ao longo do dia;
• atividade física aeróbica regular, como caminhada, bicicleta ou natação;
• controle do estresse, com técnicas de relaxamento, meditação ou psicoterapia;
• moderação no consumo de álcool e cafeína.
Quando procurar o neurologista
Vale agendar uma consulta quando as crises são frequentes ou atrapalham a rotina, quando os analgésicos são necessários em muitos dias do mês ou deixaram de funcionar, ou quando a dor muda de padrão e passa a ser diferente do habitual.
A avaliação também é indicada se a dor de cabeça começou depois dos 50 anos, se piora ao tossir, fazer esforço ou deitar, se acorda você durante a noite ou se a aura aparece pela primeira vez, dura mais de uma hora ou vem acompanhada de fraqueza em um lado do corpo.
Quando a dor de cabeça exige atendimento de emergência
Além disso, procure um pronto atendimento imediatamente se a dor de cabeça vier acompanhada de algum destes sinais:
• dor súbita e muito intensa, que atinge o máximo em segundos ou poucos minutos, descrita como a pior da vida;
• fraqueza, dormência ou boca torta em um lado do corpo, dificuldade para falar ou confusão mental, principalmente se forem diferentes da aura habitual;
• febre e rigidez na nuca;
• dor que surge após uma pancada na cabeça;
• perda súbita da visão, desmaio ou convulsão.
Se a dor latejante, o enjoo e o incômodo com a luz já fazem parte da sua rotina, não é preciso esperar a próxima crise para buscar ajuda. Com diagnóstico correto e um plano de tratamento individualizado, é possível reduzir as crises e recuperar a qualidade de vida
O Núcleo de Neurologia do Hospital Sírio-Libanês é formado por especialistas em diversas áreas da neurologia. Possui capacitação para avaliação e acompanhamento de pacientes com necessidade de internação por causas neurológicas, bem como acompanhamento ambulatorial.
Conheça mais sobre o Núcleo de Neurologia do Hospital Sírio-Libanês.
Perguntas frequentes sobre enxaqueca
1. É enxaqueca ou dor de cabeça comum: como saber a diferença?
A enxaqueca costuma causar dor latejante, geralmente de um lado da cabeça, de intensidade moderada a forte, que piora com esforço e vem acompanhada de enjoo e incômodo com luz e barulho. A dor de cabeça tensional, mais comum no dia a dia, é em aperto, dos dois lados e mais leve, sem esses sintomas associados.
2. Quanto tempo dura uma crise de enxaqueca?
Sem tratamento, a fase de dor dura de 4 a 72 horas. Somando os sinais de aviso e o cansaço que fica depois, a crise pode afetar a rotina por alguns dias.
3. Toda enxaqueca tem aura?
Não. A maioria das pessoas tem enxaqueca sem aura. A aura aparece em até um terço dos casos e pode estar presente em algumas crises e ausente em outras.
4. Enxaqueca com aura aumenta o risco de AVC?
O dr. Eduardo Mutarelli lembra que pessoas com enxaqueca têm mais chance de ter um AVC, e por isso o diagnóstico e o acompanhamento são importantes. Esse aumento está ligado principalmente à enxaqueca com aura e é mais observado em mulheres jovens, mas, como explica a American Migraine Foundation, o risco absoluto continua baixo. Não fumar e conversar com o médico antes de usar anticoncepcionais hormonais são cuidados que ajudam a reduzi-lo.
5. O que causa enxaqueca?
A enxaqueca resulta de uma predisposição genética que deixa o cérebro mais sensível a estímulos. Sobre essa base, gatilhos como sono irregular, jejum, estresse, alterações hormonais e álcool podem desencadear as crises.
6. Por que a enxaqueca é mais comum em mulheres?
As variações hormonais, especialmente as que acontecem perto da menstruação, influenciam as crises. No Brasil, a doença é 2,2 vezes mais frequente entre as mulheres, e o padrão das crises pode mudar em fases como a gravidez e a menopausa.
7. Preciso fazer ressonância para confirmar a enxaqueca?
Na maioria dos casos, não. O diagnóstico é clínico, e os exames de imagem ficam reservados para situações com sinais de alerta ou mudança no padrão da dor.
8. Tomar analgésico com frequência pode piorar a enxaqueca?
Sim. O uso excessivo de analgésicos pode causar a cefaleia por uso excessivo de medicamentos, em que as dores ficam cada vez mais frequentes. Por isso, a automedicação deve ser evitada, e o uso de remédios deve seguir orientação médica.
9. Enxaqueca tem cura?
Não existe uma cura definitiva, mas a enxaqueca pode ser controlada. Com tratamento adequado e ajustes nos hábitos, muitas pessoas passam a ter crises menos frequentes e menos intensas, e em algumas elas diminuem com o passar dos anos.
10. Qual médico trata enxaqueca?
O clínico geral pode fazer o diagnóstico e iniciar o tratamento. O neurologista é o especialista indicado para crises frequentes, enxaqueca crônica, auras diferentes do habitual ou casos que não respondem bem ao tratamento.
Texto validado pro Dr. Eduardo Genaro Mutarelli CRM - 42777